terça-feira, 18 de março de 2014

Maria, Você É negra!!!!!!!!!!!!!!!!


Retorno do Recalcado? Gritante!




Criança ensina muito psicanaliticamente mesmo, expõe e se insurge contra os sintomas de seus pais, recusa-os, um sinal claro de saúde psi.

 A resistência e negação dos pais é confrontada por esta menina, apesar de ser mestiça, como 99,99% dos brasileiros, seus traços constituintes hegemônicos são evidentemente negros, a mãe insiste em dizer que ela é branca!!!! 

Calma, Maria, você já é negra, espero que sua mãe um dia entenda e aceite!!!



!

domingo, 2 de março de 2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Nós, Os Coitadinhos... Ou não. E não. A Estética Pornô








Nós, Os Coitadinhos... Ou não. E não. A Estética Pornô





Fernando Robles

 Dia desses tive a oportunidade de assistir, no Telecine Cult, ao filme Confissões de uma garota de programa (The girlfriend experience, 2009),do diretor - que pode ser considerado cult, conforme preconizado pelo canal - Steven Soderbergh e estrelado por Sasha Grey, não uma ilustre desconhecida, mas que gerou estranheza na forma e meio em que se apresentava (se o meio é a mensagem, como diria nosso querido Marshall McLuhan, a mensagem teve ruídos).

  Qual e por quê a estranheza? Ao assistí-lo, não pude deixar de me surpreender por reconhecer a famosa atriz, não por filmes cult, mas pornográficos... A estranheza então se desfez ao ver se tratar, sem dúvida (na minha apreensão imediata) de um documentário, aguçando minha curiosidade voyeurística sobre a suposta vida daquela atriz e outras formas de ganhos com seu corpo e habilidades.
Sasha Grey


 Tendo pego o filme já iniciado, vi se tratar da entrevista em mistura com um acompanhamento estilo reality show do dia-a-dia de uma prostituta de luxo em Nova Iorque, nada chocante, sendo essa a profissão e a vocação mais antigas da feminilidade, como falei, minhas suspeitas estavam se confirmando: era documentário da vida de “Sasha”.

 Tudo competia para esta interpretação, até pela maneira como o filme foi construído, numa tentativa mesmo de evocar esta impressão: pessoas/atores, como se constatou a posteriori olhando para câmera, que em diversas tomadas sacudia também de maneira errática, como se filmasse algo autêntico, no calor do acontecimento real, sem hipótese para definição de planos melhores ou refilmagens; personagens (tidos até então, por mim, como pessoas reais) dando depoimentos intermeados por uma entrevista supostamente real da escort girl Chelsea a um jornalista/ documentarista/ diretor(?) real...

 Ao ouvir Chelsea como nome da protagonista, para mim foi indiferente, no momento, não ser Sasha Grey, pois, claro, quando assisti ao filme, não lembrava do nome da atriz pornô, apenas de suas performances orgiáticas, de modo que continuei acreditando na documentaridade, (nos filmes pornôs não costumamos nos ater a “detalhes” como nomes).

 Porém, independente do nome distinto, muitos fatores reforçavam meu engano: ao focar como protagonista do suposto documentário uma atriz pornô/ “celebridade” nos xvideos da vida - da “vida” mesmo, se considerarmos que a masturbação digital que fazemos na nossa relação com o “outro” ratinho-robótico, pushing his buttons (mexendo com “ele”), clicando o clitórico botão do mouse leva à masturbação “real”... (mas isso é outra discussão) -; no papel de prostituta, os valores praticados por ela a seus clientes eram de fato condizentes ao de supostas celebridades lista rosa mesmo – de uma atriz pornô, talvez (a módica quantia de dois mil dólares por hora) -, dando credibilidade ao engodo, sobretudo (ou apenas, não sei) no meu caso, já que não vira o início, conforme relatei. 

 Depois, ao se constatar a ficção, percebi que foram todos recursos “estéticos”, por assim dizer, empreendidos por Soderbergh, talvez para dar esta impressão aos desavisados como eu; mas, aparentemente e principalmente – isto evidenciado na escolha da atriz –, quis “surpreender” aos avisados (não sei com que surpresa, pois se trata claro de um sobretexto e de uma supersignificação... um anti-recurso à arte – o cult, digamos assim, apesar da banalização dele – e  à surpresa), na tentativa tosca de fazer a arte imitar assim a vida, “chocar” os intelectualóides puristas e críticos de cinema... ou, bem mais provável, querer ser aclamado pelos mesmíssimos.


 Talvez, possa-se fazer estes parênteses, esta leitura mais ”rebuscada”, “nobre” (cult?), no sentido de que a intenção do diretor tenha sido justamente fazer destes elementos hiper-reais uma crítica e uma surpresa, nesta leitura crítica metalinguística dos meios de comunicação audiovisuais, assim como com a personagem prostituta “vivida” por uma atriz pornô, ele também como diretor genial e – mais:  cultíssimo... Mais, ainda: cool – fazer um fakemantary de uma história real, quase real, ou ainda e melhor: mais real que o real (como diria Jean Baudrillard)... um avesso, do avesso, do avesso, do avesso, parafraseando nossos também geniais (só quem não é sambista como bons poetas e maus diplomatas ou "novos” bahianos para designar São Paulo como túmulo do samba) é... pode ser... tudo pode ser e é redutível a inúmeras interpretações... Mas duvido, não creio.

No entanto, além destes enquadres “estéticos”, também podemos interpretar todo este jogo como uma estratégia de promoção mercadológica do filme - no “make believe” hollywoodiano, centrado nos cifrões - ou seja, houve quem se interessasse pelo filme, e provavelmente majoritariamente, sabendo ser Sasha Grey interpretando um personagem, e por ser Sasha Grey a interpretar um personagem, em seu debut mais casto (cult), neste desvirginizar agora todavia todo redentor e reparador de sua vida underground, ainda que, e talvez  porque, o personagem interpretado estivesse bastante circunscrito e orbitando aspectos do mundo pornô.
 Ou não, novamente usando o grande Caetano (bom termos um Lobão de vez em quando para por em xeque verdades midiáticas... globais, digamos assim para sermos mais claros e também num sobretexto, não posso evitar, pós-moderno educado pela magnética telinha também), pode ser que ele quisesse isso, aquilo e aquilo outro... ou os críticos de cinema vissem isso aquilo e aquilo outro... Ou nada disso, ou, mais condizente a nosso mundo, tanto faz (whatever), não vi as entrevistas ou comentários deles sobre tal filme, sobretudo pois não me interessam, não sou crítico de cinema nem diretor... e entrevistas ou notas destes são ainda mais sobretextos que só mesmificam e agem como analgésicos à abordagem que quero empreender. Ou seja: isto não é uma crítica do filme, não é uma crítica de cinema! E me orgulho bastante disso.

 No enfoque que pretendo discutir, tal filme só retrata que estamos na esfera, nua e crua, se podemos usar jocosamente desta expressão, do que o livre pensador francês Jean Baudrillard qualifica de hiper-realidade, ou seja, vivemos no universo do simulacro e do fascínio, em que há nos projetos de comunicação estética a tentativa de fazer a arte falar e funcionar mais real que o real, num tenebroso "bem vindo ao deserto do real".
 Se tal dinâmica, por um lado, pode levar a certa obliteração e paralisia do processo criativo de imaginação, conforme o mesmo era concebido na era dita moderna, romântica... em que a velocidade e abrangência dos veículos de comunicação ainda eram comparativamente incipientes; hoje turvados pelo excesso, conforme se refere o psicanalista Joel Birman, passamos, em sua concepção, a construções subjetivas pós-modernas bem mais pobres simbolicamente, submetidas à efígie do imediatismo das sensações, sensações estas nada elaboradas, maquínicas - reduzidas à materialidade corporal propriamente dita – ou seja, da passagem ao ato, no inapreensível (do excesso e do imediatismo das sensações e ações, que impossibilita o tecer semiótico, não semiótica das significações puras, elas não importam, mas de seus afetos em troca no processo de busca significativa).

 Sasha Grey é uma coitada (se formos na piada fácil, buscando a etimologia do termo, muito coitada mesmo),  por, na busca ávida de identidade e reconhecimento, acabar sempre como títere, não por ser títere em si, coisa que tem algo de potentíssimo neste interjogo mutante e cheio de reviravoltas nas relações lúdicas sujeito-objeto, mas por ser títere e ponto, sem relações de troca com o outro, sem sujeito e objeto... vamos nos aprofundar neste aspecto ao longo do texto.
  Não acho que busque reparação, na lógica moderna, pouco tem que se envergonhar - pelo contrário, na lógica do I did it... ela fez e fez e fez e fez... muitos done her, ela atingiu a condição, ainda que dúbia, como tudo cada vez mais é, de celebridade e pessoa de sucesso, gozou (não sei se de fato, duvido até, mas ao menos representado inúmeras vezes) de bem mais que seus quinze minutos de fama - mas sim afirmação como mulher liberada (bem liberada mesmo, insistindo na piada ridícula) dos nossos tempos pós-feministas e pós-revolução sexual.
 Mas Sasha Grey não está satisfeita - era da insatisfação, do gozo precoce ou da impotência, ainda que virtualmente desmentidos por este gênero do cinema que a própria Sasha tanto empreendeu -, ela não quer ser só um objetinho parcial bonito – não posso falar rostinho, pois, bem sabemos, trata-se de outra extremidade corpórea que foi celebrizada em zooms e closes – ela também é “humana”, mais que isso, talentosa atriz, atriz de verdade... 

 Sasha é “inteligente”, inclusive soube que ela acaba de lançar um livro (meio versão piorada dos 50 tons, por sua vez versão piorada das Sabrinas que eram vendidas nas bancas de jornal), pelo menos me disse e assim analisou uma língua venenosa, nunca li nenhum dos três, aliás duvido que esta pessoa tenha lido, quis é fazer este comentário sarcástico, mesmo sem ler.
  
A história sempre se repete como farsa? Ou como farsa da farsa? Ou a farsa é a história? A história é um nada, pois não se tem história?
  
 É isso a hiper-realidade? Não... é bem pior, como coloca Baudrillard, a hiper-realidade é o real do real, por isso grotesco... mas esses também são outros assuntos e/ou não, aproveitando a deixa bahianica nagô). Sasha Grey demonstra em sua busca – colaborada pelo nobre diretor, (sem testes de sofá? Nunca saberemos) – que realmente sua outra extremidade é um rostinho bonito, mas é um todo? Ou fragmentos parciais? Nada de negativo nisso, retornando a Barthes e a Nietzsche, são os fragmentos que nos constituem, quando são autênticos conosco naquela entrada epifenomênica no rio, naquele instante.
 A graça (... ou, dizendo melhor, a ausência total de graça) nisto tudo é que o títere se comporta independente do seu mestre, aliás, à revelia, nem à revelia, melhor dizendo, à despeito, sem nenhuma relação com o que talvez coordenasse aquele fantoche.
 Como veremos mais abaixo em nossa análise, não há nenhuma troca entre suposto mestre dos fantoches e fantoche: todos fantoches, completamente indiferentes e isolados entre si... autômatos de si mesmos... aí sim e nisso: coitados!
 Pois é, nesta sua busca, Chelsea... Ops, Catherine Millet... Ops, Bruna Surfistinha... Enfim, Sasha Grey... (as Sashas Grey  e talvez também as Sasha Meneguel), quer provar a todos e talvez a si mesma –  além de dar continuidade a uma sobrevida no ganho de seus sofridos milhões de dólares e dando continuidade artística à carreira pós-indústria pornô (que prefere as mais novinhas, coisa que está deixando de ser) – que detém também os valores e qualidade mais refinados e menos evidentes supracitados...
 Mas, se assim o fosse de fato, Sasha Grey não seria jamais uma mísera coitada (ainda que muito bem remunerada). Pelo contrário, seria um emblema e uma bandeira da mulher atual, em sua independência, liberdade... soberania indevida e sem sentido, mas buscada, na estúpida guerra dos sexos reinventada de forma cada vez mais estúpida dia após dia: Sasha Grey seria o ícone na marcha das vadias, ostentando o título com primor.

 Fazendo mais outros parênteses: quando digo fato, retorno àquela lógica de que sei que todos os fatos não são “factuais”, dependem e dão aberturas a inúmeras (e redutíveis, mais importante, e contra meu propósito: não quero reduzir!) interpretações; quando coloco fato é uma licença poética de ensaísta, o rumo que quero dar à minha análise, jamais uma verdade em si, mesmo porque uma das minhas intenções, também não as reduzindo (nem as excedendo, que sejam o que são ou o que venham a ser, ou nada disso – simpatizei com o “ou não”) é colocar em xeque tais verdades ou a lógica que nos leva a as adotar e fechar todo o “resto”, resto este que contém o mais importante.

 Resumindo (ou “sintetizando”, para ficar mais bonito, mais cult... Por quê também não fazer esta ascese e transcendência do pornô da linguagem? Melhor: “para sintetizar”... ou este lindo, digno de um gozo: “à guisa de conclusão”; fugindo de quaisquer gerundismos pornográficos): eu sei lá se Sasha Grey se considera uma coitada (apesar, sabemos, dela ser... e muito... e vivam as piadas fáceis!), uso desta história para fazer minhas elocubrações, ela foi tão usada (e usada, e usada, e usada...),  um produto da mídia, por que eu não tenho direito também? Só por que sou psicólogo e me é reservado o papel hipócrita e cínico do mais nazista de todos e supremacia da burocracia: o “politicamente correto”?
 Não. Vou usar sim, mesmo e sempre desta licença, eu me permito (“eu me autorizo”, parodiando nossos felizes amigos lacanianos), sem julgar ninguém especificamente, isto sim, jamais, mas como enlace reflexivo, na base do fragmento de Barthes, no epifenômeno de um evento que ocorre em paralelo com muitos outros na nossa contemporaneidade, Não posso dizer que  sem moralismos, pois, de novo, recorrendo à etimologia, moral tem a ver com alma, com o existir vivente, as respectivas jornadas existenciais, ou seja, tudo a ver com o assunto do psicólogo, posso dizer sem moralismos em relação à vulgarização e redutibilidade deste significado de moral empreendido pela comunicação rasteira de massa (assim como podemos dizer em relação a perversão, sedução etc... termos que se dotaram de uma negatividade preconceituosa similar, sem relação às respectivas etimologias, bem mais complexas).
 Todas estas justificativas e voltas, claro, também dizem respeito aos meus recalques, fruto também do politicamente correto e desta mesma sociedade contemporânea, portanto, sem mais floreios e explicações – mania (defeito) também da formação de psicólogo e da, aí sim moral com a conotação vulgar, sua missão tácita de colocar tudo a falar, lógica da televisão, colocar a imagem explícita (pornô?) em primeiro plano, trazer tudo ao discurso manifesto; cego à cegueira da visão, prestando homenagens ao Rauzito (ou ao um de seus gurus... ojeriza dos cult e rei dos gerundismos: Paulo Coelho... Mas deixemos Raul... mais simpático e épico, queremos também ser simpáticos... sem tirar, porém, “onda de herói”, longe de ser épico), ou à sabedoria milenar de que, na maioria das vezes, o silêncio é ouro – ou seja, mesmo criticando, também faço questão de ser politicamente correto, a única vantagenzinha, se se pode dizer, é que consigo ainda ter alguma consciência disso.

  Apenas outra justificativazinha faz-se mister, acabou se impondo: sendo eu da área da Psicologia e não da Filosofia (embora estas nunca devam ser separadas, entre outras que devem ser usadas como correlatas sempre, que esta ideia de classificação e catalogação do conhecimento remonta ao ideário do iluminismo, sujeito a várias críticas... etc, etc... outras discussões, inclusive muitas já efetuadas), bom salientar que subjacente e mais importante do que o conteúdo, ao se adotar este recurso de fazer falar ou trazer à tona, é que se trata de um dos vários métodos de fazer com que novas e criativas oportunidades de subjetivação existencial inter-relacional com o mundo surjam neste movimento: rearranjos, elaborações e conformações diversos.
 Inclusive, relendo todas essas considerações, justificativas das justificativas, interlocução com leitores, sacadas e críticas a coisas que eu mesmo faço, tentando assim exorcizá-las, mas, pelo contrário, trazendo-as mais à baila, lembro-me muito do homem do subsolo, ou seja, tenho plena consciência de que sofro dos mesmos maus, também estou usando de sobretextos e super-significações, talvez porque os textos e as significações de fato tenham se esvaziado, vivo e vivemos na era do vazio, como diz Lipovetsky (aliás vou parar de citar também, como é ensaio, vou usar de outra licença, citando uma última vez – será? Provavelmente não, bem sei, mas quero pelo menos flexibilizar tal recurso que tenta apenas dar consistência às vezes a um texto fraco... Outros casos, não o meu, claro, nunca o meu! – Vilém Flusser, que diz que não referenciava mais as citações implícitas em seu texto, contudo com o mesmo recalque de dizer que elas existiam e a profusão, pois sabe que, com o seu uso destas, não seria mais fiel à ideia original do autor, seria uma usurpação e deturpação dessa... Portanto, longe de plágio, queria era preservar o autor de vir a dizer, ainda que com suas próprias palavras mas através de excertos e em contextos muito diversos, o que ele nunca gostaria de ter dito). Somos todos justificadores do fato de não haver mais nada a se justificar... o que é a justificativa senão o esvaziamento do caráter radical, virulento... significativo animicamente... do que se pretendia justificar, mas, ao fazê-lo, mata-o? Somos todos homens do subsolo, ou homens dos Lobos, remontando à Freud, o retorno do recalcado cai sobre nós, recalcamos o oco, nossos conteúdos viram hiper-textos (HTML, linguagem de Internet), saturaos de significações... mas vazios de conteúdo... somos todos Soderberghs ou seus personagens estúpidos... somos todos Sasha Grey! Somos uns coitados!


Por que, na minha leitura fragmentária e licenciosa, a personagem de si mesma, Sasha Grey, é uma – chega da piada – coitada (claro, não só isso, ela não se resume a isso, tudo é mais complexo, quem não é coitado? Introduza aqui o discurso politicamente correto que quiser: ... blábláblá...)?
1)      Porque ela não é uma atriz (pelo menos não uma boa atriz, ainda que uma atriz boa... E recomeçam as piadas infames!) – nem de verdade (o que quer que isso signifique), nem pornô.
2)      Seu rostinho, em conformidade com sua outra extremidade, pode ser também bonitinho... mas é, sobretudo, ordinário! Não o ordinário provocante, pecador, de Nélson Rodrigues, apesar é claro de eu pegar carona em sua expressão, não quero jamais deturpá-la em sua poesia... é um ordinário ordinário mesmo, no caso de Sasha... e só.
     Vi-a em entrevista ao Danilo Gentili, naquele programa Agora é Tarde, ela tem sempre a mesmíssima expressão facial, seja sendo entrevistada, seja como Chelsea, seja dando – em linguagem bem chula e pornô – todos seus orifícios a um batalhão de falos: na entrevista, não se vê conversa (claro, também em função do interlocutor, mas não vem ao caso), no filme – como Chelsea – não se vê Chelsea, mas sim Sasha Grey e, como Sasha Grey, não representa absolutamente nada seu rosto bonitinho é ordinário porque inexpressivo, quem, por algum pudor, nunca os viu, agora, com esta justificativa (sempre justificativas) científica, pela curiosidade prosaica, antropológica, como cunharam os cults/cools, permita-se assistir, autorize-se... e diga se vê expressão de sentimento, não digo rebuscados ou puros, de prazer, de tesão mesmo, em seu rosto?
O rosto de Sasha Grey é a expressão mais fria do vazio, talvez por isso seu sucesso (pornô e cult, sendo que agora esses dois gêneros estão cada vez mais parecidos... assim como todos outros gêneros), talvez exatamente por isso, conscientemente ou não, como gostamos de apregoar, Soderbergh escolheu-a em seu casting como atriz principal... porque seu rosto, seu corpo, como devem ser todos seus demais talentos (não li seu romance) são cools... cult.  Nada mais frio e inexpressivo que o cool; que inclusive significa frio, mas não um frio enregelante, glacial... nada disso: um frio leve, um frio de nada, um nada de frio... mas antes de tudo: o frio do nada! 


Ou seja, Sacha Grey, aparentemente massacrada por vários homens ao mesmo tempo na verdade massacra-os: está sempre com a expressão de anestesia, seus buracos são literal e abstratamente buracos negros que nos remetem ao vazio dos vazios, nos esvaziam ainda mais sugando tudo do que resta de nossas almas, nossas pois, no voyeurismo pornô também estamos ali “comendo-a”, consumistas como somos, sejam imagens, produtos ou comida mesmo... ou nós mesmos e os outros... ou estamos ali, identificados com Sasha, sendo comidos.
  
 
Não como filhos de Saturno, no quadro de Goya, nem como Saturno, na identificação com o batalhão sem rosto (também vazios, os atores pornô homens nunca interessam nos filmes, são os maiores objetos parciais da indústria toda, dificilmente e raramente vemos seus rostos ou queremos vê-los), estamos cool também, também anestesiados no processo, na proteção do expectador anônimo na tela composta por bits e bites tão virtuais quanto as mordidas que não damos mais na maçã do conhecimento do bem e do mal... estamos mortos, talvez por isso outro grande sucesso da indústria cinematográfica mais recorrente seja o mundo zumbi... nós somos os zumbis... o horror não está mais na expressão deSaturno... O pior dos horrores: não há mais horror, há a orgia dos mortos-vivos... por isso sentimos tesão e nos masturbamos com Sasha... é um tesão narcísico, egoísta... mas não um narcisismo inflado em seu ego, sim um verdadeiro vácuo, o avesso do avesso, novamente em minha referência irônica... o mais real que o real... um sexo que não é mais sexo porque é muito sexo, nem animal é... já se deu e se comeu de todas as formas e por todos anões, cavalos e bizarrices inimagináveis... e a identificação é tanto porque agora nem mais no pornô, que era o ícone da representação do prazer sexual (ainda que representação sem brochas, ejaculações precoces etc... e sobretudo sem prazer), nem mais sexual é, está-se imune totalmente ao sexo, até no pornô... a isso nos masturbamos, a isso prestamos homenagens (piadas e mais piadas) à musa, à célebre celebridade: Sasha Grey.


xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

À guisa de conclusão (falei que iria usar), o fato é que vemos tudo isso hoje em dia e podemos propor novos sonhos em um mundo que já realizou muitos que se tornaram pesadelos ou que não cumpriram o que se esperava que cumprissem. Não há caminhos abertos, não há manuais de solução ou de felicidade... Mas isso é bom, isso pode ser a grande salvação... O vazio é também representado pelo sentimento de que tudo já foi explorado, tentado e utilizado; a sensação de inocência perdida e a falta de motivação e fé em novidades... mas tudo isso é porque as novidades que podem vir são tão novas e únicas que, justamente, ainda estão por vir... e, diferentemente da lógica da tela, não vão chegar até nós para contemplarmos, fascinados, estáticos, paralisados... usando de clichê, por que não, também? Depende de nós!

O mundo robótico que culminou em nós como zumbis e Sashas Grey surgiu em consequência do iluminismo, só que este mesmo
Iluminismo, além das falaciosas Igualdade e Liberdade apregoava a Fraternidade... esta última, incoerente tanto à Igualdade (para que ter um irmão igual? Mais do mesmo? Hoje somos e queremos ser diferentes... e cada vez mais iguais, citando Karnak, só de birra, por dizer que não iria mais citar: “O indivíduo é individual, ele é diferente, mas é igual”) quanto à Liberdade (laços fraternos? Ainda assim laços... não dá para sermos livres assim...)... perdendo (2x1) e sendo recalcada... mas há sempre o retorno do recalcado, citando o bom e velho Freud, ainda que sob a forma pornô... o amor está aí... a essência, a energia, a fonte de mudanças... resta criarmos...

 Parece fácil, prosaico... mas é muito difícil, claro, não quero iludir ninguém, nem a mim mesmo... mas talvez seja a nossa última saída... como Pizarro (ou seria Cortez) que queimou suas naus para que os espanhóis nem pensassem em fugir, a única saída seria enfrentar os incas (ou seriam os maias? Ou os astecas? Ou foi Júlio César quem fez isso? Enfim, como disse o fato verdadeiro pouco importa, mas sim a verdade nossa que criamos dos fatos... a que, no clichê, “depende de nós”, ou o ser fiel a si mesmo nietzschiano, também um clichê, mas mais cult... o que pode ser um demérito,pois remete a cool, ou seja, até essa alusão com conotação positiva ao cult não é uma verdade em si).


  Talvez, como sugeriram na mudança de milênio, ou em 2012, falando de maias, o mundo realmente já tenha acabado, mas, remetendo-me novamente a outro grande pensador (estou me contradizendo mesmo, e daí?), Giorgio Agamben, talvez o mundo novo, o mundo pós-holocausto, pós-juízo final seja igualzinho ao mundo pré-juízo final (texto seu belíssimo em A comunidade que vem) e estabelecer mudanças, criar alternativas, fazer um mundo novo, um paraíso na terra seja algo que, embora esteja em nossas mãos, é complicado justamente porque está em nossas mãos... mas é nosso único caminho a trilhar... como os marujos/guerreiros de Pizarro: o único caminho é o enfrentamento, é para frente... e a hora é já! Nenhum nó górdio não pode ser desatado com uma bela atitude fora da caixa, não há roteiro a seguir, cabe a nós escrevê-lo.